Comunidade Campina

Por Isabela Perotti “A convivência nasce do diálogo que celebra nossas diferenças” (Dalai Lama)

 

Em um país continental como o Brasil, com ampla diversidade cultural, identifica-se que os Assentamentos Humanos Sustentáveis (AHS) têm diferentes formas de se organizar, mas quase todos utilizam alguma forma de governança participativa, incluindo a Sociocracia. Desse contexto surge a necessidade de entender como os AHS bem-sucedidos se organizam, bem como documentar melhores práticas e exemplos que sirvam de inspiração para uma nova forma de organização coletiva.

Este artigo apresenta um desses AHS, o modo de entender seu funcionamento estrutural de governança e autossustentabilidade. Para tanto, foi realizado um levantamento de dados prévio através do preenchimento de formulário on line por parte da comunidade, de informações por meio do site da Comunidade Campina, das redes sociais e entrevista com um dos fundadores.

A Comunidade Campina

Fundada em 15 de maio de 1991, a Comunidade Campina, localizada no Vale do Capão, no Parque Nacional da Chapada Diamantina no Município de Palmeiras – Bahia, é resultado de um movimento de pessoas que decidiram viver de forma mais integrada com a natureza, através da construção de uma vida comunitária visando a melhoria da qualidade de vida.

A Comunidade investe esforços em diversas áreas referentes a autossustentabilidade, onde incluem-se: produção orgânica de alimentos, ervas medicinais, produtos medicinais e cosméticos (sabonetes, pomadas, tinturas), reflorestamento e sistemas permaculturais.

Atualmente a comunidade conta com aproximadamente 15 moradores, sendo 4 famílias e o restante pessoas solteiras. No entanto, segundo Edilson Silva, “a campina é dinâmica! ” – e esse número varia de acordo com a estação do ano, uma vez que no inverno muitas pessoas viajam e no verão muitas voltam à região, o que resulta em uma variação de 15 a 25 pessoas. O fluxo de pessoas também varia de acordo com as atividades realizadas na comunidade, como cursos de permacultura, vivências de final de ano, entre outras atividades.

Para se tornar um morador da comunidade, a pessoa passa por algumas fases de experiência e aprendizado da vida comunitária. Inicialmente, como hóspede, seja do camping ou do alojamento, até um mês ela é considerada uma visitante. Após um mês, se torna uma candidata a moradora e assume um trabalho focal estabelecido no Conselho Comunitário. Após um ano convivendo, aprendendo e compartilhando seu cotidiano na comunidade, essa pessoa é considerada uma moradora. Quando só então ganha o direito e o dever de construir uma casa, compreendendo que será de uso pessoal, mas um bem da comunidade quando estiver desocupada.

Processos de Governança

Com a ideia de igualdade, de distribuição de poder, de estar aberto a decisões sempre muito bem discutidas, ao longo de 27 anos muitos processos foram experimentados, incluindo muitos conflitos e confusões, até chegar na organização que se tem hoje consistindo em: Conselho de Moradores (moradores) e Conselho Comunitário (candidatos a moradores e hóspedes).

De acordo com a responsabilidade e domínio de cada conselho as decisões são tomadas em três instâncias, que além dos dois conselhos, inclui-se também os grupos de moradores. Segundo o fundador entrevistado, questões mais complexas e delicadas da comunidade, como escola, gerenciamento da horta, geração de renda e alimentos, por exemplo, são de responsabilidade do Conselho de Moradores, que se reúne extraordinariamente. Já no Conselho Comunitário, com reuniões semanais, são tomadas decisões sobre questões cotidianas, como a eleição de áreas de trabalho denominadas “focalizações” e seus respectivos novos “focalizadores”. Por fim, os Grupos de Moradores (organizados por áreas de trabalho), eventualmente se reúnem para sanar questões as quais não há tempo para reunir todo o Conselho Comunitário, o que garante a autonomia individual para resolução de problemas.

Na Comunidade Campina todas as decisões são tomadas por consenso. Apenas quando ninguém estiver contrário a decisão, é que se decide. A consulta aos diversos pontos de vista é sempre preservada, e os argumentos mais coerentes são muito valorizados neste processo. São longas  reuniões, mas em geral são satisfatórias para todos, uma vez que os méritos das decisões tomadas são coletivos e não apenas de quem apresentou a proposta.

“Tudo na Campina é muito orgânico”. Para Edilson Silva, um dos fundadores, esta é a essência deste AHS quanto ao seu modelo de governança. Partindo da espontaneidade, e também, por que não, do bom humor, a comunidade criou um modelo baseado na “física cômica”. Onde dessa convergência entre espontaneidade e respeito à natureza, tudo tem possibilidade de se organizar. Todavia, atributos como “falta de sensibilidade, preguiça, ingenuidade” são alguns dos desafios a serem vencidos nessa convivência comunitária e por esse aprendizado estão permeados os diversos conflitos.

Na Comunidade Campina, os conflitos são resolvidos no âmbito dos Conselhos Comunitário ou dos Moradores. Se é conflito pessoal, os envolvidos procuram se resolve-lo. Caso isso não aconteça, uma pessoa (de comum acordo entre as partes) é convidada a mediar a questão. Caso isso ainda não resolva, a questão vai para o Conselho de Moradores, que é soberano para decidir como os envolvidos devem proceder. Em determinadas situações algum dos envolvidos precisa se ausentar da comunidade, para o bem comum.

De acordo com o fundador entrevistado, a Campina se entende como “uma grande construção coletiva que não tem dono, chefe, mestre, nem linha espiritual específica”. São ovo-lacto-vegetarianos e não admitem o consumo de álcool na comunidade. Para preservar estas diretrizes, os moradores mais antigos são considerados como os líderes, com esse papel de guardiões dos princípios originários da comunidade. Por essa mesma razão, eles são solicitados para resolver conflitos e problemas gerais que as pessoas com menos experiência não se entendem aptas a resolver.

Deste mesmo modo, de apoio mútuo e compartilhamento de experiências, este AHS reconhece que se manteve e se desenvolveu ao longo desses 27 anos com a ajuda e participação de centenas de pessoas que já passaram por lá e deram sua contribuição. Atualmente alguns moradores da comunidade estão participando ativamente da associação de moradores do Vale do Rio Riachinho difundindo práticas da autogestão.

Autossustentabilidade na Comunidade Campina

Um dos princípios que impulsionaram o nascimento desta comunidade foi o de “recompor as florestas que existiam na região antes do homem chegar”. Na época da fundação, o solo da Campina era bastante degradado pelas muitas queimadas realizadas pela população local, para renovação do capim. Os fundadores decidiram então, que iriam trabalhar para recompor as florestas antigas, compartilhando suas vidas uns com os outros. Desde então, os moradores que por lá passaram contribuíram para boas práticas ecológicas, e há mais de 20 anos a comunidade dispõe de um sistema de captação de água por gravidade. Atualmente estão trabalhando neste sistema para abastecer também os vizinhos da comunidade.

Para se autossustentar e proporcionar impactos ambientais positivos à região, a comunidade se organiza em três áreas:

  1. Geração de renda:

a) Produção de ervas medicinais, tinturas e sabonetes artesanais;

b) Recepção de eventos, o que implica na manutenção dos campings e alojamentos;

  1. Produção de alimentos da horta e dos Sistemas Agroflorestais (SAFs);
  2. Construções e manutenção da infraestrutura da comunidade, o que inclui: rede de distribuição de águas, sistemas de energia solar nas casas, saneamento ecológico com Bacia de Evaporação (BETs) e sanitários secos, compostagem de resíduos, minhocário, entre outras.

A renda gerada na comunidade é dividida em 3 partes, sendo uma para o fundo administrativo da comunidade, outra para a área de trabalho que gerou a renda e a outra parte é dividido entre todos os moradores.

O sistema de trabalho da comunidade é pela manhã e geralmente as pessoas aproveitam o período da tarde para desenvolver outras atividades, voltadas ou não à geração de renda.

Para além, os moradores estão se preparando para trabalhar com Turismo de Base Comunitária (TBC).

 

Desafios e Aprendizagens

Um AHS que aos quase 30 anos de existência desfruta de muita experiência em autogestão, práticas ecológicas, manejo de conflitos, reinvenções de geração de renda e ainda dispõe de vitalidade para projetos futuros, como a “construção de um Templo, ampliação de oficina, do herbário e dos SAFs”.

Além do interesse em maior investimento em educação ambiental, principalmente para estudantes de escolas públicas e universidades, a Comunidade Campina propõe um equilíbrio, como um sistema orgânico, com ênfase no desenvolvimento humano por meio da convivência de pares em práticas harmônicas com a natureza, valorizando a simplicidade. Mas será que alguns dos processos deste AHS poderiam ser otimizados? Como tornar as tomadas de decisões mais eficientes e eficazes?

A Comunidade Campina, aparentemente, apresenta um modelo de governança semi- horizontal, pois ainda que haja equivalência na maioria dos processos, parte das decisões são tomadas por um círculo de moradores guardiões dos princípios da comunidade. Na Sociocracia a proposta é semelhante, com o adicional de que os papeis contém descritos seus domínios e responsabilidades, o que pode abranger a tomada de decisão individual, mas essencialmente, há o entendimento de que todos os envolvidos no processo têm alguma experiência que vale ser compartilhada, isto é, a inteligência coletiva supera a compreensão individual sobre como manejar as tensões, ou mesmo, os conflitos.

No entanto, em relação ao modelo do AHS em questão, o que ofereceria uma possibilidade de otimização seria o modelo de governança da Sociocracia, onde dentre outros princípios, o processo é baseado em tomada de decisão por consentimento, não por consenso. Na tomada de decisão por consenso, uma objeção pode impedir de o processo continuar e assim, prejudicar a eficácia. Já na tomada de decisão por consentimento, além de ter como cenário o princípio da equivalência – onde 

todas as vozes têm o mesmo valor – a eficácia é um dos grandes destaques deste modelo, pois diferente do consenso, permite que o grupo entenda e explore as objeções – garantindo que o poder está distribuído – e possivelmente aprimore a proposta inicial, para só então o coletivo decidir.

Se compreende assim, que é por uma melhoria nos processos de autogestão que os modelos de governança são inovados a cada novo ciclo de aprendizados. Nessa jornada sob a luz da valorização de cada ser humano, da eficiência de sistemas orgânicos de coexistência e da resiliência necessária para avançar é que AHSs, como a Comunidade Campina, permanecem resistindo como modelos de vida comunitária mais harmônicos com a natureza e na busca por um equilíbrio de valores sociais universais.

 

* Revisão de texto Sandra Mari Franz, Rafael Oliveira, Jorge Guerra, Nara Pais, Ruth Andrade (Junho de 2018)

 

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