Céu do Mapiá

por Sandra Mari da Encarnação Franz, 2018

 

A Comunidade emergiu com o propósito de concretizar o desenvolvimento humano e espiritual em um sistema de vida comunitário justo e sustentável, em harmonia e nutrido pela Floresta. Seu povo e sua cultura são direta e fortemente enraizados nos modos de vida tradicionais da floresta amazônica. (Simas, 2013, p.33) A Vila Céu do Mapiá localiza-se no estado do Amazonas, no município de Pauini, a 30 km do Rio Purus, na Floresta Nacional Purus, área de 256.000ha. A comunidade é uma espécie de “capital” do lugar, mesmo assim o acesso só é possível por via fluvial.

 

Este estudo foi produzido a partir da leitura de trabalhos científicos sobre a comunidade, de entrevistas com Ana Carolina Simas, docente da UFV e apoiadora, desde 2004, de estudos acadêmicos e projetos comunitários implantados na Vila Céu do Mapiá. Além disso, o site oficial da comunidade contribuiu com diversas informações; e por fim as conversas informais com visitantes que lá estiveram e pessoas que prestaram serviços no local enriqueceram este trabalho.

 

Breve histórico da Comunidade

 

A história de Céu do Mapiá começa com a jornada do Mestre Raimundo Irineu Serra (1892- 1971), maranhense, veio para a região amazônica no “Ciclo da Borracha”. Como seringueiro tornou-se parte da floresta e dos costumes dos povos tradicionais. Ali conheceu a medicina da floresta, a bebida sagrada dos pajés, chamada Ayahuasca, Yagé, entre outros nomes.

 

 

Mestre Irineu, como passou a ser chamado, foi o grande responsável pelo nome Santo Daime e pela expansão da bebida sagrada como base desta nova doutrina. Entre seus discípulos estava Sebastião Mota de Melo (1920 – 1990), amazonense, seringueiro, artesão de canoas, fundador da Vila Céu do Mapiá. Após dois anos da morte de Mestre Irineu (1971), Sebastião Mota de Melo criou, na periferia de Rio Branco, Acre, seu Centro Daimista; seu nome de nascimento: Colônia Cinco Mil. Assim nasceu o primeiro ideal de comunidade do Padrinho Sebastião, como é respeitosamente chamado na comunidade. Desde a sua origem o princípio fundador desta comunidade foi o de servir como laboratório para a prática do desenvolvimento espiritual a partir do Santo Daime, sua “cola” por natureza. Alinhados a essa motivação maior estão os valores que fortalecem a vida comunitária integrada a floresta: partilha, sustentabilidade e autossuficiência provida pelo cultivo e pela floresta. Com a expansão urbana e crescente degradação do solo, no final da década de 70 a comunidade deu os primeiros passos para adentrar na floresta. O local escolhido foi Boca do Acre, no Amazonas. Apesar dos desafios a comunidade ali se instalou. Mestre Sebastião e seus seguidores abriram roçados e construíram benfeitorias. Porém, por falta de condições legais deliberadas pelo INCRA, no final do terceiro ano de permanência, o Padrinho Sebastião decidiu seguir rio acima. E, onde o Igarapé Mapiá se divide em dois, em 21 de janeiro de 1983 foi fundada a Vila Céu do Mapiá. O trabalho constante e a crença na força comunitária foi estruturando a vila e, segundo site oficial da VCM, em 1985 já eram 250 moradores. Sua população atual conta com cerca de 600 moradores fixos.

 

 

A liderança comunitária sempre esteve ligada a força espiritual dos seus fundadores. Além do Padrinho Sebastião, seu grande mestre, a Madrinha Rita, sua esposa, sempre assumiu o papel da grande mãe desta comunidade. Com a morte do Padrinho Sebastião em 1990, seu filho e sucessor Alfredo Gregório de Melo, assumiu a liderança, assegurando sua continuidade dentro dos seus princípios fundadores: “O propósito da Vila Céu do Mapiá é o desenvolvimento espiritual. Existe para ser um centro de cura. É a realização da Doutrina no plano social (igualdade, fraternidade/comunidade) e ecológico (preservação e reflorestamento). O céu do Mapiá é uma célula social da Doutrina Daimista, tem na Vila seu domicílio, sede do centro Eclético”. (Simas, 2013, pág.200)

 

 

Projetos da Comunidade

 

Céu do Mapiá é uma comunidade vibrante como organização, como projetos e eventos que cria e com toda a dinâmica de experiências que recebe e que oferece. Conforme salienta Ana Carolina, há vários projetos que movimentam a comunidade, vigiando as necessidades emergentes e apoiando o seu desenvolvimento.

 

Destacamos aqui apenas alguns que podem traduzir um pouco do engajamento dessa experiência:

 

  • Centro Medicina da Floresta, dedicado à pesquisa e produção de fitoterápicos, de remédios tradicionais e dos Florais da Amazônia, hoje atua fortemente em projetos para formação de jovens aprendizes.
  • Outro projeto presente na formação dos jovens da comunidade é o Jardim da Natureza, grupo de artistas e artesãos que trabalha com o reconhecimento da floresta e a criação de biojóias e outras formas de artesanato, usando os recursos da floresta.
  • Há ainda os projetos que  atendem as necessidades de comunicação como a rádio comunitária Jagube e o telecentro Nova Ideia, que oferece acessos à internet e a uma pequena biblioteca comunitária.
  • Já o Saúde Ambiental é um movimento que cuida da coleta seletiva do lixo, oferece oficinas de reciclagem, campanhas de conscientização e ainda é responsável pela edição de um jornal comunitário sobre o tema.

 

Há muitos outros projetos representativos que contribuem para a qualidade e para a superação dos desafios da vida comunitária neste local. Vale destacar que mesmo com as adversidades trazidas pelo isolamento e pelo próprio crescimento da comunidade, esta continua sendo um modelo de qualidade de vida e coerência comunitária para as demais comunidades da região amazônica.

 

 

 

O Sistema Econômico

 

Desde a sua fundação a Vila Céu do Mapiá viveu um longo ciclo econômico caracterizado pela partilha de bens e serviços. A renda da comunidade era basicamente a extração da borracha, o trabalho do cultivo era a base de mutirões e a colheita servia às necessidades locais; nessa experiência nenhuma moeda circulava. A partir da década de 90, a comunidade foi sofrendo mudanças gradativas, hoje cada família é responsável pela sua vida financeira. O pequeno comércio presente na comunidade é fortalecido na ocasião dos festivais, eventos religiosos que celebram a Doutrina Daimista e que acontecem duas vezes ao ano nos meses de junho/julho e dezembro/janeiro e recebe em torno de 200 visitantes por festival. Segundo Simas, (2013), há duas instituições que contribuem para a organização econômica do lugar: a cooperativa local COOPERAR, responsável pela distribuição de produtos de consumo da/para a comunidade e pela administração de projetos de produção local e geração de renda. Há também o Instituto de Desenvolvimento Ambiental Raimundo Irineu  Serra (IDARIS), que assume os cuidados socioambientais da região da FLONA – Floresta Nacional do Purus – cuidando dos projetos de produção agrícola, de reflorestamento e de outras formas de apoio econômico vindos de outras partes do Brasil e do mundo. Simas ainda complementa que há um campo favorável para experiências como moeda local, economia solidária, dentre outras inovações para gerir o sistema econômico local.

 

 

 

 

Estrutura e Processos de Governança

 

A liderança da comunidade, desde a sua fundação, sempre esteve ligada a força espiritual e a doutrina do Santo Daime. Por isso, a Igreja é considerada a entidade central com grande influência nas decisões da vida comunitária. As lideranças geralmente emergem das famílias fundadoras da Comunidade, hoje representada na pessoa de Alfredo Gregório de Melo, o Padrinho Alfredo, como passou a ser chamado após a morte de seu pai, o Padrinho Sebastião. Estruturalmente, se se imaginar a governança da Vila Céu do Mapiá como um grande guarda-chuva teremos a igreja representada pelas lideranças espirituais como o grande pano do guarda-chuva que abençoa e zela pelos valores da comunidade. O cabo desse guarda-chuva é a Associação de Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM). Ela rege e sustenta todos os demais setores, as instituições e as diferentes organizações. É uma das organizações mais antigas e juntamente com seus conselhos ajuda a gerir o governo local, cuidando da base comunitária, sustentada pelos seus princípios e valores de origem. As hastes responsáveis pela abertura desse grande guarda-chuva são representadas pelo Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI), criado pelo Plano de Desenvolvimento Comunitário (PDC), em 2004. O GTI é o núcleo que concentra representantes diversos – setores, organizações, instituições – da vila; atua apoiando estudos e tomadas de decisões nas diferentes questões comunitárias. Certamente todo o empenho da comunidade na criação dessa estrutura organizacional traz clareza sobre cada parte desse todo que forma a Vila Céu do Mapiá. Além disso, pode tornar as decisões mais distribuídas e preparar a comunidade para dar o próximo passo; segundo Ana Carolina, a descrição dos “domínios” e “papeis” de cada instituição, setor ou organização que compõe esse grande guarda-chuva.

 

Desafios e Aprendizagens

 

Ao longo da sua história, Céu do Mapiá viveu vários processos que contribuíram para a necessária e constante reinvenção da comunidade. Para citar alguns: o Plano de Desenvolvimento Comunitário, apoiado pelo IBAMA e por diversas ONGS (2004). Também a capacitação de agentes comunitários para facilitação de processos de comunicação, ligada ao programa Ecos da Floresta; a formação Dragon Dreaming, a formação AmaGaia – Educação Gaia na Amazônia, todas de 2013. Muitas outras experiências foram recebidas pela comunidade e, de alguma forma, lhe prepararam para responder, como aponta Ana Carolina, a grande pergunta do momento: Diante desse contexto de expansão vivido pela comunidade até aqui, como que ela se consolida, fortalecendo seu ideário original e construindo uma governança mais coerente e distribuída?

 

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