Comunidade Inkiri Piracanga

Por Rafael Pereira Oliveira – junho de 2018

Este artigo apresenta o assentamento humano sustentável Inkiri Piracanga e seu modelo de gestão. A comunidade, que se autodenomina “eco-espiritual”, está localizada na Península de Maraú, no sul da Bahia. O estudo foi baseado em entrevistas realizadas com Diego Matar Wawrzeniak (economista, que está há dois anos na comunidade e é o atual diretor financeiro do instituto e membro do comitê de liderança) e Juliana Faber (educadora e permacultora que está há sete anos na comunidade e atua em diversos projetos e conselhos). Além das entrevistas, foram usadas informações baseadas no site da comunidade e em artigos jornalísticos e acadêmicos.

Apresentação

A comunidade intencional Inkiri Piracanga tem como “cola” o trabalho de autoconhecimento e se caracteriza, segundo os entrevistados, “pela capacidade de mudar o tempo todo, a flexibilidade e a resiliência”.

A semente da comunidade foi plantada há quinze anos (2003) pela terapeuta holística portuguesa Angelina Ataíde, que veio para o Brasil atrás de um sonho de infância, em que nadava com golfinhos num lugar que havia um rio, o mar e também uma floresta. Ela encontrou-se com seu sonho numa fazenda abandonada a beira do rio Piracanga, onde viu a possibilidade de desenvolver um centro holístico e uma comunidade. Atualmente, vivem esse sonho cerca de 40 adultos e 18 crianças e adolescentes, sendo que 70% dos integrantes está abaixo dos 35 anos. Além dos membros fixos, em torno de 50 pessoas participam diariamente dos programas de residência, que permitem experiências curtas ou longas de convívio

na comunidade. Ainda há 40 funcionários que lá trabalham, totalizando uma economia que envolve cerca de 150 pessoas, diariamente, além daqueles que fazem os cursos que lá são oferecidos, que somam 2 mil visitantes por ano.

A Comunidade Inkiri se descreve como “um lugar de realização de sonhos”. O grupo está envolvido na execução de mais de 20 projetos que buscam “o crescimento integral do ser humano a partir de uma visão ecológica e socialmente responsável”. Os projetos, que materializam o “Sonho Inkiri”, estão baseados em sete pilares: Natureza, Comunidade, Criação, Crianças, Artes, Autoconhecimento e Alimentação.

Inkiri é um cumprimento usado por uma tribo que viveu há muitos anos na região e significa “o amor em mim saúda o amor em você”. O “Sonho Inkiri” é reconhecer e manifestar o Amor e a Verdade em cada um, em todos e em tudo. É através da ação, da autoresponsabilização e do serviço desinteressado que cada um descobre e experimenta a forma de materializar esse sonho. Segundo Diego, “a gente é uma comunidade muito focada no trabalho (…), na ação que transforma e concretiza a matéria”. Juliana complementa: “um grande diferencial é que esta é uma comunidade muito movida pela ação (…) o maior foco é no executar”. A entrada na comunidade se dá a partir de uma experiência nos diversos cursos, retiros ou programas de imersão e por dedicação à “seva”, o serviço desinteressado em algum dos projetos.

O Sistema Econômico

A economia de Inkiri é baseada na observação da natureza e se expressa por meio da “Floresta de Projetos”, sistema criado há 2 anos, onde cada projeto é visto como uma árvore. Segundo Diego, “numa floresta as árvores estão conectadas, uma apoia a outra. Quanto mais biodiverso for, mais resiliente aquele ambiente será. Então, quanto mais diversa for a nossa carteira de projetos mais dinâmica será nossa economia”. Os projetos são energizados segundo as partes da árvore: A raiz é o lugar do líder, que sustenta e manda energia para o todo, nutrindo o grupo com o propósito e a visão do projeto. No tronco está a pessoa que ajuda na sustentação e conecta a raiz com os galhos e as folhas. Cada posição tem um nível de responsabilidade e comprometimento que reflete na remuneração (que chama de bolsa auxílio). Existem faixas que valem para todas as árvores, que é o mínimo e o máximo que cada pessoa naquela posição irá receber, independente se o projeto gere abundância financeira ou não. A escolha por qual projeto integrar é fluida. “Às vezes chega o outono e uma árvore perde todas as folhas, que voltam para o solo, viram adubo e vão energizar outro projeto”, acrescenta Diego. “Vemos o trabalho em nossos projetos como uma fonte de autoconhecimento, de você poder desenvolver novos dons e talentos”, conclui.

A fertilização do solo desta floresta se dá por meio do Banco Inkiri, que cria as condições para a troca entre os projetos. Há uma moeda local (Inkiri) e todas as remunerações são preferencialmente nessa moeda.

Estrutura e Processos de Governança

Inkiri Piracanga está organizada em torno de um Instituto (pessoa jurídica sem fins econômicos) que responde juridicamente pela comunidade, composto de uma diretoria executiva e conselhos. Cada conselho é formado por 5 a 7 membros da comunidade e conta com um presidente, responsável por organizar as pautas e garantir a realização das reuniões. Segundo Diego, “na prática chegamos a um número de 7 como sendo bom para o fluxo das reuniões”. Cada conselho cuida de um tema importante para a comunidade: Adm-Financeiro, Comunidade, Natureza, Crianças, Artes, Alimentação e Socio-ambiental. As decisões são tomadas nos conselhos e levadas como informes na Reunião da Comunidade, que acontece uma vez por semana.

Inkiri é uma comunidade que se estruturou em torno de uma liderança vertical. Até recentemente essa liderança era exclusiva da fundadora, que aos poucos passou a compartilhar seu poder de decisão e veto com mais uma pessoa. No momento da redação deste artigo uma nova transição estava em andamento, para uma liderança representada por um comitê composto por quatro pessoas com expertises em diversas áreas. Esse “supra conselho”, chamado de Comitê de Liderança, pretende ser o guardião da visão da comunidade, cuida de temas mais transversais e faz a ponte entre os conselhos. Com poder de veto, é ele que valida as decisões tomadas pelos Conselhos. Ainda que a decisão final possa ser alterada pelo Comitê, nos Conselhos são tomadas por consenso (quando não há bloqueio de nenhum dos envolvidos).

A Comunidade faz seu planejamento e avaliação por meio de encontros anuais e a flexibilidade para mudar decisões tomadas é ressaltada por Juliana: “se não deu certo, a gente muda, está tudo bem mudar”. Atualmente, a primavera Inkiri é o momento de avaliação e atualização dos acordos, projetos e do regimento interno, além da renovação dos conselhos. A partir do inverno de 2018 existe a intensão de que estes encontros sejam a cada estação.

Sobre a seleção de papéis, o que foi possível verificar é que é realizada num processo ressaltado pelos entrevistados como “orgânico”: A pessoa primeiro assume o papel, se envolve com as funções, e depois é referendada pelos líderes. Nos Conselhos, cabe ao papel de presidente organizar as pautas, que são encaminhadas anteriormente a todos, e coordenar as reuniões.

A comunidade lida com os conflitos interpessoais buscando, primeiro, uma resolução entre os envolvidos. Não há uma metodologia específica para cuidar dos conflitos, mas a leitura de aura (metodologia de autoconhecimento que é muito praticada e ensinada na comunidade) foi citada como sendo uma ferramenta usada para compreender a dinâmica relacional. Caso seja necessário, o conflito é tratado no Conselho da Comunidade. Segundo Diego, “uma coisa que ajuda muito é o trabalho de autoconhecimento que é nosso maior foco aqui”. Juliana também ressalta o foco no trabalho interior: “por mais que a gente tenha conflitos,

divergências, se eu estou em conflito com o outro, procuro entender o que isto está me mostrando e qual o aprendizado que posso tirar daí (…) a autorresponsabilidade é o que sustenta a comunidade”.

Desafios e Aprendizagens

Inkiri propõe-se a ser um sistema com alta resiliência e adaptabilidade. Isso, somado ao foco na ação e ao respeito à liderança vertical, define a base dos processos dessa comunidade. Nos últimos anos, tem passado por mudanças que visam a uma maior distribuição do poder, ainda que a fundadora é escutada e seu poder é legitimado.

Observo a adoção de um modelo de governança onde a base opera com alto grau de equivalência e o topo concentra um poder legitimado. Essa aparente contradição me traz a reflexão sobre as armadilhas que o modelo de tomada de decisão por consenso pode apresentar. Nele, um bloqueio pode impedir que o grupo avance, fazendo com que a eficácia seja prejudicada. Em alguns grupos, para garantir o fluxo dos processos, é possível que surjam instâncias decisórias que reproduzam o modelo autocrático. Talvez a busca por eficácia seja a motivadora para a comunidade persistir na criação de instâncias de decisão com poder concentrado. A tomada de decisão por consentimento proposta pela Sociocracia pode ser um antídoto para a busca de eficácia sem perda de equivalência, ao mesmo tempo que amplia o engajamento das pessoas e a resiliência da organização, ao ativar a inteligência coletiva.

Ainda que os processos de tomada de decisão e o poder centralizado reproduzam um modelo pouco inovador, Inkiri pode ser considerada um laboratório de soluções na parte econômica, na educação infantil e na natureza. As soluções no âmbito econômico, por exemplo, e o auto grau de adaptabilidade, podem servir de inspiração para outras comunidades.

No âmbito dos desafios, Juliana destaca uma tendência da comunidade se isolar: “a gente gira muito em torno do próprio eixo (…). A comunidade está pouco conectada com outras comunidades”. Se por um lado, a constante chegada de novas pessoas traz a sensação “de estarmos mais conectados, de furar a bolha”, por outro, a alta rotatividade é apontada como um desafio, pois gera obstáculos para a manutenção da cultura da comunidade.

É na busca do equilíbrio entre poder centralizado e equivalência e entre diversidade e identidade que caminha Inkiri Piracanga, firme no propósito de ser um campo fértil para semear sonhos, como o da Angelina jovem, “que nadava com os golfinhos”.

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