Por Tanya Stergiou

Tomar uma decisão pode ser uma tarefa bastante árdua, especialmente se for em grupo. Na sociocracia usamos o padrão de tomada de decisão por consentimento (TDC) para decisões estruturais que afetam nosso círculo.

Um círculo é a soma das partes, que são as pessoas com sua diversidade e visão única, trazendo um olhar ampliado sobre a proposta.

TDC é um passo a passo guiado por um facilitador, que também é membro do grupo, com o intuito de levar a equipe a entender, explorar e tomar decisões juntos. O processo está baseado no consentimento, cujo objetivo é sair de uma posição onde todos concordam e ir para decisões que não têm objeções. Ou seja: decisões que sejam boas e suficientes por agora e seguras o suficiente para serem testadas. 

A lógica é testar a decisão e deixar que a prática a aperfeiçoe através de pequenos ajustes de melhoria contínua. Mas o que é mais rico do processo de TDC é a rodada de objeções. As objeções são o coração da sociocracia, porque abre caminhos para tomar decisões com riscos calculados, aprender com o próprio erro em tempo hábil e inovar com a prática. Neste texto, vou apresentar o padrão de TDC, esclarecer o que é uma objeção e trazer dicas para articulá-las.

Tomada de Decisão por Consentimento

Na sociocracia tomamos decisões de governança dentro de uma reunião de círculo: um ritual dedicado a cuidar do desenho da estrutura organizacional. Neste ritual, criamos e alteramos acordos, papéis e círculos e fazemos eleições para os papéis essenciais como de facilitador, secretário e representante. Em algumas organizações, a pauta é preparada antes da reunião. Assim, os membros podem se preparar lendo as propostas com antecedência. Alguns grupos preferem criar a pauta no momento da reunião. Os itens da pauta que requerem uma decisão do círculo são apresentadas como propostas. O proponente da proposta apresenta a ideia e o facilitador guia o processo de tomada de decisão por consentimento. Tomada de decisão por consentimento é um padrão, porque tem um passo a passo bem claro.

Padrão da Tomada de Decisão por Consentimento

Perguntas de Esclarecimento

Ao apresentar a proposta, o facilitador abre uma rodada de perguntas de esclarecimento. Os membros do círculo trazem perguntas e dúvidas para entender melhor a proposta. O proponente, ou qualquer outro membro do círculo que tiver a informação, responde às perguntas. Quando não houver mais perguntas e quando todos tiverem clareza sobre a proposta, o grupo poderá seguir para o próximo passo.

Reações Rápidas e Considerações Breves

A rodada de reações rápidas é uma rodada livre. As pessoas costumam falar suas primeiras impressões ao ouvir a proposta, o que gostou ou não gostou, sugestões de melhoria e preocupações. O objetivo dessa rodada é explorar a proposta. Ao ouvir as contribuições, nos conectamos com outras percepções e dimensões da proposta. Eu, pessoalmente, aprendi a importância de me conectar com as pessoas para poder entender com mais profundidade o potencial da proposta que está sendo processada.

As pessoas trazem comentários surpreendentes que ajudam a abrir a nossa consciência sobre a proposta e seu potencial, ou dano.

É sugerido que todas as pessoas participem nesta rodada.

Objeções

Depois de entender e explorar a proposta, o círculo está pronto para decidir. Essa rodada tem dois nomes: Rodada de consentimento ou de objeções. Prefiro usar ‘rodada de objeções’ porque incentiva as pessoas a terem um olhar mais crítico e trazer objeções se for necessário. O desafio é articular objeções válidas. Para isso é preciso entender o que, de fato, é uma objeção. Primeiro quero esclarecer aquilo que normalmente é confundido com uma objeção. Uma sugestão de melhoria, uma preocupação, uma contra proposta, uma preferência – não são objeções.

Uma objeção é uma razão pela qual a proposta como está apresentada pode dar errado. Essa razão precisa ser expressada como um argumento claro, baseado em evidências e/ou exemplos.

Para trazer uma objeção é necessário mudar nossa forma de pensar sobre as decisões. Normalmente gostamos de decisões que atendam às nossas preferências mas, quando usamos consentimento, a lógica é bem diferente. Saímos de um lugar pequeno e restrito, que são nossas preferências, e vamos para um espaço maior, que é nossa faixa de tolerância. Dentro da nossa faixa de tolerância há mais opções e menos preferências. Aquilo que está fora da nossa faixa de tolerância é intolerável, e, portanto, provavelmente uma objeção. Decisões sem objeções são aquelas seguras suficientemente para serem testadas.

Se uma razão pela qual algo pode dar errado é encontrada, é necessário cuidar da objeção e alterar a proposta.

Usar TDC como uma forma de tomar decisões promove o uso do princípio de empirismo dentro das organizações. Perceber o ambiente de trabalho como um laboratório, onde se encoraja testar decisões como experimentos, significa criar um ambiente seguro para aprender com o erro. Infelizmente, muitas organizações não endossam o erro e por isso se mostram pouco vulneráveis, mesmo para riscos calculados. No lugar da compreensão, o erro é tratado com punição e culpa. O grande problema é que, sem espaço para testar e errar, não há inovação – algo necessário para sobreviver no mundo dos negócios de hoje.

Desenvolver uma cultura organizacional, onde as pessoas estão instigadas e aplaudidas para trazer objeções, aumenta o engajamento dos membros na criação e evolução da organização.

Quando uma organização aprende a usar bem o padrão decisório de TDC, objeções se tornam presentes e são vistas como informações valiosas que o grupo não viu em relação a um dano existente na proposta. Aprender a trazer objeções é fundamental para o processo de tomada de decisão. Na sociocracia, todas as pessoas do círculo são responsáveis por trazer objeções e cumprir acordos consentidos.

Se alguém percebeu que algo daria errado e não trouxe como objeção, não adiante dizer – “sabia que daria errado”. É responsabilidade de todos participar na formulação das decisões. 

Em cada tipo de rodada responde-se a uma solicitação diferente.

Aqui vão algumas dicas para ajudar:

Como trazer Objeções?

Expressar o Dano

Para trazer objeções, sempre precisamos de algum tipo de baliza que oriente nossos argumentos. Na sociocracia, a baliza é o propósito do círculo. Algumas organizações preferem usar o driver (uma frase composta do contexto e da necessidade, usado na Sociocracia 3.0), ou: finalidade, objetivo ou uma frase de necessidade. Qualquer tipo de baliza funciona. Uma objeção é um argumento que demonstra que a proposta ou uma parte da proposta vai causar um dano ao trabalho do círculo. O dano é o ponto principal que queremos expressar para o grupo porque ajuda os membros a focar no problema e criar um diálogo a partir dele. Para formular o argumento, simplesmente comece com: O dano é …, e explique o dano com mais detalhes. Se tiver dificuldades para explicar o dano, faça algumas perguntas para si mesmo para ajudar a orientar a construção do seu argumento.

Perguntas de Reflexão

·   Estou trazendo uma sugestão, objeção ou preocupação? Há uma objeção por trás da minha sugestão?

·   O que está por trás da minha sugestão? Como a proposta pode dar ruim? Quais são as evidências que eu tenho?

·   Estou tentando prever e controlar o futuro? Quais são os riscos envolvidos? Temos tempo para cuidar se algo der errado?

·   Minha objeção está formulada em relação ao propósito do círculo?

Explorar o Dano

Um círculo existe para realizar seu propósito através das responsabilidades do seu trabalho. Então, o trabalho precisa fluir. Por isso, quando há uma razão pela qual o trabalho do círculo pode ser afetado, é crucial trazer isso na forma de uma objeção. Além de expressar o dano, é necessário explicar como esse dano afeta o trabalho de um papel, impede o círculo de realizar seu propósito, ou demonstra que não há tempo hábil para cuidar do dano se for acontecer. Quando possível, traga exemplos e evidências, talvez de experiências passadas, que ajudam fortalecer o argumento, fundamentando-o.

Com mais clareza sobre o dano e como ele pode afetar o círculo, o potencial de achar uma solução para integrar a objeção se torna mais fácil.

Ser Específico

Quando há objeções à uma proposta, é muito raro jogar fora a proposta inteira. A proposta que está na mesa é a proposta que o grupo quer processar e tentar manter se for possível. Afinal, alguém cuidou da sua elaboração, a qual foi pensada antes e já houve uma reflexão sobre caso a proposta não fosse consentida na sua totalidade, quais partes teria. Por isso, o “objetor” deve especificar qual é a parte da proposta que pode dar ruim. As vezes é uma palavra, uma frase, ao algo que está faltando. Ao especificar a parte da proposta na qual a objeção se encontra, o grupo pode focar em alterar justamente aquela parte. Ao final, quando uma objeção é válida, torna-se responsabilidade de todos os membros do círculo integrar essa objeção e melhorar a proposta para que seja segura o suficiente para ser testada.

A tomada de decisão por consentimento é um padrão claro que todos podem aprender a fazer. Às vezes o padrão parece engessado porque as pessoas precisam seguir o passo a passo e não podem falar fora da rodada. Talvez ajude a perceber que, por trás da TDC, há um ‘metapadrão’ de: Entender, Explorar e Decidir passos essenciais para tomar decisões em grupos. 

Ao praticar a TDC, treinamos nossa escuta, percepção, abertura para outros pontos de vista e um olhar crítico para pontos de atenção. A fim de fortalecer uma cultura de trazer objeções é necessário paciência para aprender uma nova lógica que vai além de sugestões, preferências e melhorias, para um lugar mais amplo e com mais possibilidades, risco e vulnerabilidade. Também é preciso tempo de dedicação para entender e explorar os argumentos na rodada de objeções. Através de perguntas, ajudamos o objetor e o círculo a entenderem a objeção. A curiosidade é um atributo que promove a exploração das objeções, trazendo cada vez mais clareza para as pessoas sobre o que é uma objeção, como formular uma objeção e como integrar esses presentes valiosos.

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