Treinamento em Lideranças Sociocráticas (SOLT 4)

Círculo de ESTUDO DE CASO:

Alcineide Magalhães

Anna Carolina Campagnac

Angela Neiva de Mattos

Felipe Novaes Rocha

Fernanda Lenz 

Ingrid Silveira 

Mariana Gonçalez 

Ricardo Barcellos

O “ACONCHEGO” DE CASA BRASIL

 

O CASA Brasil é uma organização não governamental (ONG) que se define como uma “rede das redes”. É o elo de ligação brasileiro com o CASA Latina que é o Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina que, por sua vez, está vinculado ao GEN – Global Ecovillage Network, uma rede global de ecovilas. O Conselho de Assentamentos Sustentáveis inclui iniciativas que caminham para a sustentabilidade nas dimensões ecológica, social, política, econômica, cultural e espiritual.

O CASA Brasil tem como missão e propósito colaborar na organização e troca de conhecimentos e experiências junto a assentamentos humanos sustentáveis que buscam a proteção da “Mãe Terra”. Também apoia o processo de transição de projetos já existentes para esse novo modelo de gestão fundado na auto-sustentabilidade e na proteção ao meio ambiente.

 

Tem como visão uma sociedade organizada em favor dos direitos da natureza, desde o indivíduo, ao grupo de coletivos (rede de redes). Busca intercambiar informações, conhecimentos, plataformas, através da autogestão, gerindo seus produtos e serviços para melhor compreender e respeitar a natureza.

 

A organização existe desde 2012 e mais recentemente, em 2015, passou a adotar a sociocracia como modelo de gestão e de tomada de decisões no seu dia a dia. A incorporação da sociocracia trouxe muitos resultados positivos e a organização está atualmente em processo de amadurecimento e de transição para a incorporação de novos membros e readequação da estrutura sociocrática, conforme entrevista feita com uma das suas idealizadoras.  

 

O CASA Latina está acima da estrutura montada no Brasil pelo CASA Brasil e conta com 2 representantes por país e 5 elos operacionais. 

 

O CASA Brasil conta atualmente com aproximadamente 15 pessoas que formam um círculo geral chamado “Cozinha” e com círculos operacionais nas áreas de Administração/Finanças e Comunicação e Gestão de Projetos (*). Existe também um círculo formado por um grupo de conselheiros regionais do Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que no total conta com 16 representantes nacionais, sendo que dois deles fazem o elo duplo com o CASA Latina.

 

   Qual foi o “chamado” que levou à adoção da sociocracia?:

A partir da experiência de alguns membros do CASA Brasil em eventos realizados pelo CASA Latina, foi percebida a oportunidade de implantar o modelo sociocrático para cumprir a missão da organização de forma mais transparente, equilibrada e descomplicada. Percebeu-se que esse modelo poderia ser facilmente adotado para atender a necessidade de organizações de diferentes tamanhos ou propósitos, com atuação regional, nacional ou mesmo local através dos círculos de gestão que podem ser criados de acordo com a necessidade e o porte de cada projeto. 

 

Antes da implantação desse modelo, havia uma percepção de que as vozes de alguns  dos participantes do CASA Brasil se sobressaiam quando comparado com outras vozes dentro da organização, dando pouco espaço para o conhecimento empírico e a contribuição dos demais membros do grupo. 

 

A sociocracia foi uma ótima resposta a esta tensão já que trouxe maior equivalência e equilíbrio entre todas as vozes e deu guarida a propostas de todos membros. Permitiu, enfim, maior horizontalidade e transparência nos processos de tomada de decisão com atas de reunião disponibilizadas a todos. Os processos decisórios se estruturam rapidamente, buscando sempre respeitar as regras estabelecidas pelo grupo.

 

O CASA Brasil também busca inspiração para apoiar sua prática de autogestão nas quatro dimensões da sustentabilidade da Pedagogia Gaia e da Permacultura. 

 

   

   Como foram os primeiros passos na sociocracia?

 

No início houve alguma resistência e certo desconforto na implantação do modelo sociocrático por ser algo novo, principalmente pelos mais antigos na casa, mas estes vem se desfazendo com o tempo e com as adaptações necessárias. O papel do facilitador sofreu resistências pela necessidade de intervir nas reuniões e cortar algumas falas para dar vazão ao processo de discussão e manter a equivalência da participação de todos. Atrasos ou falta de comparecimento nas reuniões também aconteceram. Outro desafio grande foi a falta de conhecimento e de experiência das pessoas com os conceitos e práticas da sociocracia, bem como a vontade de cada um de fazer valer o seu próprio método e seus argumentos. 

 

A parceria com SoLT (primeira edição) facilitou essa adaptação, pois foram realizados treinamentos de sociocracia dos membros da organização e os atuais novos membros já estão entrando na organização com mais conhecimento e confiança no processo. Algumas outras ações foram importantes no compartilhamento do conhecimento entre os membros da organização como treinamentos de pessoas e a criação do site do CASA Brasil. 

 

Na parte da governança os membros já conseguem aguardar a hora certa para falar; todos entendem que existe um espaço próprio para fazer perguntas, considerações e objeções. Em síntese, as pessoas estão mais confiantes no processo autocrático que está fluindo melhor.   

 

Os acordos no início da implementação desse modelo foram feitos por todo o grupo. Durante um período posterior a esse, a organização foi mantida com somente dois membros ativos e que tomavam as decisões para a organização, mas sempre abrindo espaço para outros participantes e deixando tudo reportado e transparente para todos. Foram idealizadas estruturas, mas faltavam pessoas para preencher os papeis criados. Percebeu-se que não existe, na realidade, um modelo perfeito e que o melhor é montar uma estrutura mais simples e aprimorá-la de acordo com as necessidades das pessoas e do grupo e da quantidade de pessoas na equipe.

 

Atualmente, existem os papeis de líder operacional e representante, que são eleitos para representar o CASA Brasil no conselho do CASA Latina, com mandatos de dois (2) anos, além dos papeis do facilitador e do secretário. Aos poucos as pessoas estão cada vez mais familiarizadas e confiantes no processo. Há uma maior consciência do que é “bom e suficiente para o momento” como critério para balizar o atendimento de novas demandas da organização e eventual criação de novos círculos. Uma das suas lideranças conclui que “A base sociocrática tem ajudado muito na construção dos pilares de sustentação e desenvolvimento das atividades do CASA Brasil”.

   

   O que deu certo e o que precisa ser trabalhado?

 

As tomadas de decisão são feitas a partir dos conceitos de consentimento (e não consenso) e apresentação de objeções que começam a ser absorvidas e trabalhadas pelo grupo como um presente e não como um “pesadelo”. Ou seja, que as objeções são uma oportunidade de atender as tensões que surgem ao longo do caminho para suprir as novas  necessidades e os propósitos do grupo previamente definidos. Ainda há resistência a apresentar objeções pelo receio de trazer tensões negativas que, às vezes, decorrem mais de falta de informação do que uma contrariedade em si. Nesse processo de educação dos participantes no modelo sociocrático entendem que é importante fazer a distinção entre opinião e objeção bem como seguir praticando o método que vem se tornando cada vez mais fluído na medida em que as pessoas percebem os seus ganhos.

 

Hoje, a organização conta com um círculo geral chamado “Cozinha” que cuida da parte operacional nos âmbitos administrativo/financeiro, comunicação e gestão de projetos que são os subcírculos operacionais (*). Esse conselho faz chegar a “comidinha” de ideias e ações mais mastigados para todos. Também existe o Conselho Geral integrado por representantes regionais, que interage com os projetos de cada região e também energiza o papel de duplo elo com o CASA Latina. 

 

Os participantes estão conscientes do processo de autogestão que já está mais enraizado e operando de forma mais ágil. Percebeu-se que os membros mais jovens já chegam com esse conceito de autogestão absorvido e estão mais energizados para colocar em uso essas ferramentas sociais. Já as gerações anteriores são mais questionadoras do processo de transformação em si.

 

Todas essas mudanças no CASA Brasil nos últimos anos são uma prova de que a organização é um “ser vivo”; um ser mutante que busca atender os propósitos que surgem e as inquietações das novas pessoas que chegam. Segundo uma das suas membras, o CASA Brasil é “aberta suficientemente para novas pessoas entrarem, mas fechada suficientemente para manter a organização.”. O conceito é que de se estar cuidando de uma planta, que deve ser regada todos os dias para não morrer, mas também deve ser podada para crescer mais forte. 

 

Atentos a esse cuidado e respeito às individualidades, nas reuniões sempre é feito  “check in” e “check out” para conferir como está a temperatura do grupo, trazendo mais compaixão para o processo. As pessoas aprenderam a se olhar e escutar mais e melhor, o que tem contribuído para o não surgimento de conflitos, tornando o ambiente mais aconchegante. 

 

O desafio agora é de viabilizar o ingresso de mais pessoas e redobrar todos esses cuidados, regando e podando os processos e as relações para crescerem ainda mais fortes. 

   

   Quais as práticas e ferramentas utilizadas para a formação de propostas e organização de reuniões?

 

Em 2012, o CASA Brasil nasce de uma sessão de Dragon Dreaming, e a organização continua a utilizar essa ferramenta até hoje, porém em conjunto com a Sociocracia em um modelo que chamam de ”SONHOCRACIA”.

 

As reuniões mensais são feitas por uma plataforma online de reuniões e uma vez por ano existe um encontro nacional e presencial. No futuro existe a ideia de ter encontros regionais, quando o CASA Brasil expandir mais e a organização crescer. Atualmente, o CASA Brasil participa do encontro do CASA Latina a cada dois anos (ECCO – Encontro Latino Americano de Comunidades Sustentáveis e Bem Viver), onde todas os CASAs da América Latina estão presentes.

 

Também são utilizadas ferramentas para o agendamento de reuniões e o pastas compartilhadas online para arquivar as respectivas atas. A comunicação é feita atualmente por um grupo de mensagens instantâneas online. Essas plataformas abertas aos participantes dão mais agilidade e transparência aos processos.  

 

O brainstorming é também muito utilizado, inclusive durante a formação de propostas. Na realidade o grupo prefere dizer que tem a disposição uma “caixa de ferramentas” que, quando necessário, são utilizadas diferentes metodologias colaborativas que cada participante vai trazendo nos encontros presenciais.  Nas reuniões online já não ocorrem tantas variações as ferramentas de brainstorming e sociocracia.

 

Acreditam que a sociocracia é importante para formar propostas, eleger papeis, fazer acordos, organizar círculos, pedir ações e fazer follow up. Mas na parte mais criativa e de engajar pessoas é mais efetiva a adoção de metodologias colaborativas, principalmente o brainstorming e o dragon dreaming.

 

O melhor gerenciamento financeiro ainda está sendo estudado dentro das formas possíveis de sustentabilidade econômica e que façam sentido para a organização. Atualmente a GEN – Global Ecovillage Network (rede global de ecovilas) repassa recursos para o CASA Latina e depois esta última faz aportes para o CASA Brasil. Essas contribuições já foram usadas para a construção do site e para suportar a participação de um membro do CASA Brasil no ECCO 2019.

 

   

   A estrutura Interna do CASA BRASIL:

(Maiores informações também podem ser buscadas no site da organização: www.casabr.eco.br )