Como chegamos aonde chegamos? Que histórias contamos para nós mesmos e para os outros?

No livro Regenerative Leadership, Giles Hutchins e Laura Storm nos contam a história da separação:

Há cerca de 100 mil anos atrás, pelo que temos de evidências arqueológicas, surgiam os primeiros agrupamentos humanos. Viviam de forma nômade ou semi-nômade, como caçadores e coletores, em total conexão com a natureza. 

Há cerca de 10 mil anos atrás, ocorreram mudanças climáticas e sociais que configuraram o que conhecemos hoje como Revolução Agrícola. Os agrupamentos humanos começaram a se instalar de forma permanente no território, passando a cultivar os próprios alimentos e a criar animais para fins alimentares. Nesse momento, inicia-se o patriarcado e o começo da história da separação. A terra torna-se propriedade privada e, consequentemente, as mulheres também, com o intuito de garantir que a terra passasse como herança aos descendentes legítimos.

Há cerca de 500 anos, a Revolução científica  traz consigo o método cientifico, o pensamento cartesiano, o reducionismo. Nessa mesma época, ocorre a caça às bruxas e a ampliação da separação do feminino e do masculino, do homem e da natureza.

Essa mentalidade, traz os subsídios para outra revolução, entre 1750 e 1850: a Revolução Industrial. A mudança na forma de trabalhar, trazendo a produção em massa e a indústria do consumo cria uma sociedade voltada para o crescimento, utilizando a natureza como recurso como se fosse ilimitado. Nas organizações, a hierarquia, o comando e o controle e a separação vida profissional e pessoal promovem um ambiente cada vez mais tóxico e degenerativo.

Com isso, chegamos aonde chegamos, na história da separação.

Porém, uma outra história não só é possível, mas ela já começou. É a história do Interser.

Como diz Joanna Macy, é preciso mantermos uma Esperança Ativa! Não uma fantasia de que tudo vai melhorar, mas sim imaginarmos futuros desejáveis possíveis e atuarmos nessa direção, cada um ou uma no seu papel.

Para que possamos contribuir para essa história, é necessário entendermos que ela envolve uma mudança de visão de mundo, uma mudança de paradigma e uma mudança de prática.

Nessa nova história, não vemos a natureza como algo apartado mas nos vemos como parte da natureza. Não vemos as organizações como máquinas, mas como sistemas vivos em que as pessoas são partes integrais desse todo integral que é a organização. 

Nesse novo paradigma,  mudam as crenças e os valores. Veja a tabela abaixo para alguns exemplos:

A partir desse novo olhar, percebemos que tudo está relacionado de forma interdependente e que, como na natureza, as organizações são sistemas aninhados de indivíduos, organizados em equipes, equipes organizadas em uma iniciativa que trabalha para um propósito comum e que faz parte de um ecossistema de organizações. Assim, mudam as práticas individuais e coletivas e buscamos exercer um papel regenerativo em todos os níveis.

“O trabalho regenerativo parte do entendimento de que a motivação pessoal ganha um terreno fértil quando somos capazes de desempenhar um papel único que contribui para a saúde e evolução dos lugares que são importantes para nós. Nesta ideia estão contidas duas fontes de motivação que devem ser conciliadas. A primeira fonte é interna e corresponde aos nossos interesses genuínos e qualidades particulares. A segunda fonte é externa e diz respeito ao potencial de realização que somos capazes de identificar nos sistemas que participamos. A ativação da vontade é possível, então, ao harmonizar e conciliar estas duas forças. Podemos nos perguntar: qual o meu lugar dentro deste lugar? alinhar o nosso mundo interno com o mundo externo e com uma intenção de gerar valor para o todo.” Felipe Tavares – Instituto de Desenvolvimento Regenerativo

Assim, podemos entender o papel regenerativo, ou papel gerador de valor, como a combinação da essência e do potencial a cada nível da organização.