Uma cultura humana regenerativa é saudável, resiliente e adaptável; cuida do planeta e da vida com a consciência de que esta é a maneira mais eficaz de criar um futuro próspero para toda a humanidade.” Daniel Wahl

Em um mundo complexo e em constante evolução, os conceitos não são fixos, mas ganham novos significados a todo o momento. Assim, minha intenção com este artigo não é dar definições, mas sim contribuir para o entendimento de alguns conceitos dentro do âmbito da Regeneração e, em particular, da Cultura Regenerativa nas organizações.

Observo que a explicação mais corriqueira de Regeneração é como uma evolução da Sustentabilidade com uma perspectiva de recuperar o que foi perdido. É fato que já ultrapassamos o limite do planeta e de que não basta mais ser sustentável, no sentido de manter o que existe, mas que precisamos ter ações para repor a biodiversidade e restaurar o que foi danificado. Porém, Regeneração não é só isso. Trago aqui 5 aspectos que podem ampliar esse entendimento.

1. Somos natureza

O primeiro aspecto, e que considero o mais importante, é a mudança de perspectiva. Ao invés de pensar que precisamos de ações para cuidar do meio ambiente, ainda como algo externo a nós; na visão regenerativa, o ser humano não está separado do meio: nós somos natureza. 

No livro Design de Culturas Regenerativas, Daniel Christian Wahl traz o seguinte gráfico:

Se consideramos como sustentável o ponto neutro em que o sistema não causa nenhum dano, seguindo na escala teríamos um sistema restaurativo, que traz benefícios para a natureza e o reconciliatório, em que os humanos já se veem como partes integrais da natureza. A seguir, teríamos o que chamamos de sistema regenerativo, no qual os humanos se vêem como natureza e, portanto, desenvolvem uma participação apropriada para cuidarem de si mesmos.

Isso está diretamente ligado ao princípio da auto-responsabilidade da Sociocracia. As pessoas que fazem parte do organismo vivo que é a organização, são co-responsáveis pelo todo.

2. Aninhamento 

Nos sistemas vivos, percebemos um padrão que é chamado de aninhamento, ou seja, um sistema está sempre contido no outro, como um ninho. Por exemplo, uma abelha faz parte de uma colmeia, dentro de um ecossistema, dentro de um bioma, dentro de uma bioregião, dentro do planeta Terra. Da mesma forma, eu faço parte de um domicílio, que está em uma cidade, que está em um estado, um país e dentro do planeta.

Na Sociocracia, usamos esse princípio para a criação de círculos e papéis. 

Este princípio de aninhamento, assim como outros princípios de organizações regenerativas aparecem em diversos autores, como por exemplo nesta entrevista dos 7 Princípios da Cultura Regenerativa com Carol Sanford. 

3. Essência e Potencial

“Somos criadores conscientes dos relacionamentos à nossa volta e responsáveis diretos do resultado dessa interação”. Felipe Tavares

Todo sistema vivo é único, tem características singulares que podemos chamar de sua essência. Da mesma forma, tem um potencial de contribuição para o(s) sistema(s) de que faz parte.

É da combinação da essência e do potencial de cada sistema que surge o desenvolvimento. Para que esse desenvolvimento seja regenerativo, é preciso que cada sistema contribua para o potencial do sistema maior ao qual ele pertence.

Segundo FELIPE TAVARES, o Desenvolvimento Regenerativo leva em consideração o Eu, a Comunidade e o Lugar.  O Lugar é a entidade central e o ponto de partida do projeto: identificamos o padrão de aninhamento para saber em qual parte do “todo” estamos e quais as relações que nos atravessam. O padrão de aninhamento nos localiza no sistema. 

Como cada Lugar é único, não existem soluções ou medidas padronizadas. As abordagens são ajustadas às especificidades deste Lugar, com base na essência e no potencial dos sistemas envolvidos.

4. Saúde e Vida

Quando falamos de sistemas vivos, o principal indicador é a saúde. Não é a toa que quando falamos com algum familiar ou pessoas queridas, perguntamos por sua saúde.  Quando pensamos em um ecossistema, uma das formas de medir se está saudável é pelo grau de biodiversidade. 

Em Regeneração, usa-se o termo Salutogenese como a capacidade de um sistema gerar saúde. 

As organizações que querem desenvolver culturas regenerativas buscam implementar padrões que trazem mais vida e mais saúde para as pessoas, para a organização e para o mundo.

5. Adaptabilidade – Organizações responsivas e responsáveis

O quinto elemento que gostaria de trazer neste artigo é o da adaptabilidade. Um organismo saudável é resiliente e se adapta às mudanças do contexto. 

Assim, em última instância, o propósito da autogestão é apoiar as organizações a se tornarem mais responsivas e responsáveis.

Existem diversos outros conceitos associados à Cultura Regenerativa. Este artigo não tem a pretensão de ser de forma alguma conclusivo, porém espero ter trazido alguns temas relevantes que possam nutrir sua prática nas organizações e demais sistemas de que faz parte.

Assim como a teoria, a prática também está em evolução e algumas organizações já estão experimentando e aprendendo de forma empírica a gerar cada vez mais culturas regenerativas. Acredito que a autogestão, da forma como a vemos na Sociocracia, tenha muito a contribuir para isso. Nos próximos artigos, vamos explorar mais este aspecto.

Escrito por Nara Pais