É necessário que cada ator desempenhe um papel para o teatro acontecer. O diretor também tem um papel. Ele não aparece em cena, mas um crítico percebe quando comenta o espetáculo, pois existem elementos que são da responsabilidade da direção. 

Pois então, em essência, um papel é isso: 

  • nasce de um propósito, algo que deve ser realizado,
  • consiste em responsabilidades para essa realização. 

Para uma encenação, é necessário haver interpretação, direção, cenário, caracterização, etc. Para cumprir o propósito de cada um desses pontos, as pessoas devem assumir diferentes responsabilidades. 

Da responsabilidade, em um certo contexto, deriva-se o tamanho da autonomia que cada um terá. Por exemplo, uma companhia fará uma encenação de Hamlet fazendo um sincretismo dos personagens com orixás de religiões de matriz africana. Dependendo dos detalhes desse contexto, os papéis têm autonomia para lançar mão de diferentes elementos de Shakespeare e da cultura afro-brasileira. No entanto, provavelmente não têm liberdade para mesclar com deidades indianas. 

Isso parece óbvio, mas na prática, qualquer um que já trabalhou em grupo teve tensões por não haver clareza do tamanho da autonomia de cada um. 

Em uma organização, a clareza nos papéis é fundamental:

  • Quando algo precisa ser feito: quem é responsável por fazer? 
  • Quando alguém assume uma tarefa: o quanto deve cumprir? O quanto tem autonomia para decidir? 
  • Quando um decide o que outro deve fazer: pode?

Em organizações que buscam a autogestão, não é difícil alguém ter a ideia de que tudo pode ser decidido por todos.

Papéis definidos ajudam a esclarecer o que pode ser decidido por quem.

Se a maioria dos atores decidem mudar o enredo da peça, pode? Daí cabem as perguntas:

  • Qual era o  propósito do papel de cada um?
  • Quem responde pela mudança? (Quem será responsabilizado? Quem será o responsável?)
  • O que se esperava no final das contas?

Eventualmente, o diretor pode estar no papel de decidir o que fazer com essa proposta de mudança, pois talvez seja ele quem deverá responder ao produtor e patrocinadores. Ou talvez seja ele quem vai responder pelas consequências do conflito do elenco em torno da mudança.

Por outro lado, quando os papéis estão bem colocados, aquilo que foi previsto para eles tem mais chance de se somar.

Cargos não são papéis. Ator, diretor e roteirista, por exemplo, são cargos, mas não papéis. Cada ator, vai assumir um papel diferente – isso é óbvio. E mais, na atribuição de propósitos e responsabilidades, os papéis podem não respeitar os limites dos cargos. Por exemplo, pode-se definir, por exemplo, que os atores serão um pouco diretores, ou que o diretor será um pouco roteirista.