Enquanto a crise do petróleo levou os Estados Unidos, a Suécia, o Reino Unido e o Brasil à recessão na década de 1970, a economia de países como Japão e Alemanha (Alemanha Ocidental na época) começou a crescer. Houve também um aumento significativo de mulheres promovidas a chefes de Estado, além da expansão do movimento da libertação sexual – revolução comportamental da década anterior. Essa era marcou o fim da Guerra do Vietnã e o início da defesa do meio ambiente.

Muitos consideram essa, a “era do individualismo”, mas o que os anos setenta não revelam é que, durante esse período, Bill Mollison e Gerard Endenburg começaram a experimentar diferentes abordagens participativas de design nos ambientes agricultural e social. O primeiro, um pesquisador australiano, autor, cientista, professor e biólogo. O segundo, um engenheiro elétrico holandês e empresário. Mollison cunhou o termo Permacultura junto com seu aluno, David Holmgren. Influenciado pelo seu professor, Kees Boeke, Endenburg projetou uma metodologia para colocar em prática o conceito da Sociocracia. 

Ambos trabalharam as noções de “Sistemas Complexos” em seus designs, onde o todo é maior que a soma das partes devido à interação que emerge entre elas. A combinação de diferentes variáveis gera novas habilidades e, com elas, influencia o comportamento coletivo. Exemplos de processos que emergem através da auto-organização de um sistema complexo são: sistemas sociais (redes sociais); biológicos (colônias de animais) e físicos (climas).

Inspirados na idéia que originou a permacultura como exemplo de uma floresta em menor escala, Mollison e Holmgren consideraram que, para produzir rendimento, um sistema deve ser projetado partindo dos padrões aos detalhes, levando em consideração a ‘mudança climática’ como um fator do sistema complexo que influencia o sistema como todo. 

Enquanto na sociocracia, Endenburg desenvolveu o Método de Organização Circular Sociocrático, onde os padrões são aplicados em diferentes camadas de governança que podem ser constantemente combinados e adaptados para aumentar a complexidade da estrutura organizacional. Ele considerou as ‘pessoas’ como fatores do sistema complexo que influenciam as decisões e trazem dinamismo às organizações.

Nos dois casos, as relações estabelecidas pela implementação desses padrões emergem através da auto-organização, autogestão e co-evolução dos sistemas. Os aspectos comuns observados na natureza e na sociedade permitem não apenas a compreensão do que está sendo observado, mas também a análise, a projeção e a manutenção de novos padrões em diversos contextos e escalas. O reconhecimento desses padrões é o resultado da aplicação do primeiro princípio da permacultura: “Observar e Interagir”, dando origem ao processo de design.

Quando o problema passa a ser a solução

Na permacultura o ‘problema’ é visto como a própria solução do sistema. O chamado “fator perturbador” serve para indicar algo que está em desequilíbrio e precisa ser melhorado. Indicadores ecológicos relacionados a um ou mais elementos demonstram se há muita ou pouca energia no sistema. Por exemplo, se há umidade em excesso, os fungos atacam as sementes e as plantas não se desenvolvem. Neste caso, o indicador é o fungo e a solução pode ser adicionar matéria seca ao sistema. 

Na versão 3.0 da sociocracia, o ‘problema’ é trazido pelas pessoas através de uma “tensão”. Tensão é uma lacuna entre a realidade atual e a realidade desejada. Ou seja: são indicadores sociais que demonstram necessidades de resoluções específicas. Ao serem articuladas, as tensões deixam de ser subjetivas e passam a ser transformadas em um “driver”. Driver é uma frase curta que une contexto e necessidade. Por intermédio do driver, a tensão é então contextualizada e a necessidade, identificada. Uma vez identificada, a necessidade é solucionada com a atribuição de uma ação ou mediante a criação de um acordo.

Caso essas medidas não sejam suficientes, outras soluções possíveis são a criação de um papel ou de um círculo. Papel é um conjunto de responsabilidades assumidas com autonomia por uma ou mais pessoas para atender às necessidades apresentadas no driver. E círculo é uma instância de reuniões onde decisões são tomadas por um grupo de pessoas trabalhando em direção a um propósito comum, ou para atender às necessidades do driver. Ambos são dinâmicos, mutáveis e possuem autonomia.

Exemplos de tensões comuns são a distribuição de poder, incluindo pouca ou muita autonomia, e a quebra do fluxo de comunicação. A solução da primeira tensão se dá por meio da distribuição do poder de acordo à área de domínio de um papel ou de um círculo. Para ilustrar, chamarei um dos círculos de uma organização, ‘cozinha’, e um dos papéis deste círculo, ‘cozinheiro’. Os elementos exclusivos do cozinheiro são: os utensílios, os ingredientes e os temperos da cozinha. Por tanto, a área de domínio do cozinheiro inclui: a decisão do cardápio e o controle do estoque.

Para solucionar o fluxo de comunicação, Endenburg criou os chamados ‘elos duplos’. Os elos duplos facilitam o fluxo bidirecional de informações e influências entre os círculos. Enquanto o papel do Líder Operacional é responsável por trazer a visão, propósito e informação da organização (círculo-mãe) para o círculo-filho; o papel do Representante é responsável por dar visibilidade, representar os interesses e levar tensões, petições e propostas do círculo-filho ao círculo-mãe. 

Este fluxo de comunicação permite com que os círculos afetem ou sejam impactados por uma decisão conjunta e que, através desta interação, emerja algo novo beneficiando-os mutuamente. 

O mesmo ocorre na permacultura, quando os impactos do ‘efeito de borda’ são considerados. Ao usar as bordas e valorizar os elementos marginais, a interface entre as partes é onde os eventos mais importantes acontecem. Um exemplo clássico é a união de dois ecossistemas. Do encontro das águas salgadas do mar com as águas doces do rio surgem as águas salobras do manguezal. A partir desta convergência, novas conexões são geradas. Estes são comumente os elementos mais diversos e produtivos do sistema.

Toda voz importa!

Ao imitar os padrões existentes na natureza, Ernst Gotsch, agricultor e pesquisador suíço que trabalha no Brasil (e no mundo) ressignificando modelos de agrossilvicultura, diz não existir ‘praga’ na agricultura sintrópica. Segundo ele, todos os seres, incluindo humanos, plantas e animais, trabalham em cooperação e amor incondicional e, por isso, cada espécie desempenha funções complementares. Sejam plantas “pioneiras, secundárias ou de clímax”; árvores “frutíferas ou de madeira”; sistemas “de acumulação ou abundância”; de estratificação “rasteira, baixa, média, alta ou emergente”, a distribuição de papéis – tanto na floresta quanto em uma organização -, será determinada pelas necessidades na qual um sistema busca soluções para criar ambientes harmoniosos e produtivos. 

Portanto, não há ‘concorrência’ no sistema. Em vez disso, a relação entre os elementos possibilita uma melhoria nos macrossistemas que replicam padrões nos microssistemas, e vice-versa. Segundo ele, a função da humanidade é, portanto, atuar como um dinamizador para complexificar a energia da vida no sistema da maneira mais eficiente possível.

A permacultura elucida o conceito de Gotsch em outro princípio: “Integrar ao invés de segregar.” O equivalente na sociocracia poderia ser: “Toda voz importa!” E para que todas as vozes sejam, de fato, importantes e, por tanto, escutadas, os membros da organização energizam papéis complementares para alcançar propósitos comuns. Quanto aos macro e microssistemas permaculturais, na sociocracia eles podem ser vistos como círculos organizacionais que interagem entre si. A organização seria o macrossistema ou, círculo-mãe. E os círculos específicos, os microssistemas, ou: círculos-filhos.

Bill Mollison costumava dizer que a humanidade alcançou um nível de conhecimento tamanho que talvez não fossem necessárias novas descobertas, já que precisaríamos de um século inteiro para implementar todas as soluções. Contudo, segundo ele: “A trágica realidade é que pouquíssimos sistemas sustentáveis são projetados ou aplicados por aqueles que detém o poder. E a razão é óbvia e simples: deixar com que as pessoas plantem seus próprios alimentos, construam suas próprias casas e gerem sua própria energia é justamente perder o poder político e o controle econômico sobre elas”.

Enquanto na década de 1970, mais da metade da população mundial vivia sob uma ditadura repressiva, a sociocracia foi projetada para distribuir poder entre seus associados. Se Bill Mollison ainda estivesse vivo, adotaria à sociocracia de Gerard  Endenburg como método de organização circular da permacultura! Em suas próprias palavras: “Deveríamos deixar de procurar estruturas de poder, sistemas hierárquicos ou esperar que o governo nos ajude e criar maneiras de nos ajudar mutuamente”.

Escrito por Henny Freitas